domingo, julho 02, 2006

Morgana



Ela era linda! Olhos azuis, esbelta, dengosa, independente, mas muito carinhosa.

Gostava das pessoas, de estar sempre na companhia delas. Adorava tomar sol e no inverno, precisava estar bem agasalhada, pois morria de frio.

Sempre amiga, sempre próxima, era a companheira de todos os momentos.

Se eu acordava na madrugada para ir ao banheiro, ela também ia junto e me esperava na porta. Se eu tinha insônia, ela também não dormia, embora bocejasse, ficava firme ao meu lado.

Certa vez levei um susto! De repente, alguém pulou sobre o box do chuveiro e só não caiu em cima de mim, porque segurei a tempo. Era ela que não me deixava só nem na hora do banho.

Na minha cidade raramente faz frio, mas teve um ano que a temperatura caiu muito e nós duas dormíamos bem juntinhas embaixo do edredom.

Quando eu a chamava, ela respondia na sua língua.

Às vezes eu queria estar só, ela sentia e se afastava um pouco.

Certa noite entrou gente estranha no quintal, ela movimentou as orelhinhas como se fossem radares, e o seu olhar assustado me avisou na hora que tínhamos problemas.

Ela tinha três irmãos: Richard, Maria Flor e Viviane. Embora gostasse dos três, o seu preferido era o Richard, de olhar meigo e pelos negros e brilhantes.

Tivemos uma bela convivência de sete anos!

Um dia ela ficou doentinha, sangrava pelo canto da boca, tive que leva-la ao médico.

Não melhorou. Vê-la definhar me fazia morrer um pouco também.

Uma manhã, num gesto de desespero, chamei um táxi, coloquei-a sentadinha em uma almofada em meu colo e, levei-a para a melhor e mais cara clínica veterinária da cidade vizinha. Seu estado era crítico e ela teve que ficar internada. Foi a última vez que a vi.

Durante a semana, os veterinários me telefonavam duas vezes por dia, para informar sobre o estado dela. Eles me diziam que ela estava agasalhada, medicada e bem cuidada.

Mas a imagem dela naquele táxi, em meu colo, sentadinha na almofada, com o canto da boca sangrando, vai ser difícil esquecer. Quietinha, silenciosa, não miou uma única vez. Ela confiava em mim e sabia que eu estava fazendo o que era melhor.

Embora meu coração se enchesse de esperança, chorei a semana inteira de tristeza pelo sofrimento dela.

Mas a minha amada gatinha Morgana não resistiu à doença. A minha linda siamesa tão amiga, tão presente, me deixou. E ela foi enterrada no jardim da clínica veterinária.

Há apenas três meses eu havia comprado apartamento em um prédio onde era permitido ter animais. Fiz isto por Morgana, mas ela se foi.

No entanto, os momentos que vivemos são inesquecíveis, como por exemplo, quando ela se lambia e me lambia também. Ou quando eu acordava de manhã com a cabeça fora do travesseiro e Morgana com a cabecinha nele, as patinhas esticadas, me empurrando para fora. Assistíamos a TV, eu deitada no sofá, ela deitada em meu peito. Foram anos de carinho mútuo. O tempo passou, mas Morgana estará sempre presente em meu coração.


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