domingo, julho 30, 2006

A pedido




Nas noites desocupadas, navego em busca de um des (vazio) desses momentos de ócio sem sentido. Faço conexão com o mundo, embrenho-me pelos caminhos que se
apresentam para mim, neste universo digital. Aristóteles, velha máquina, meu computador, desde há muito enferrujando sobre a mesa, é meu instrumento de busca. E o que busco eu? Não tenho muita certeza, amigos, informação, uma luz no fim do túnel, talvez a mim mesma... quem é que sabe? Meus eus manifestados nos outros ou vice-versa. Minha existência que se completa na busca de uma vivência maior. Um completo
interagir na busca do outro. Tudo isso me faz lembrar fragmentos de um antigo poema... busquei...buscaste...vinhas fatigada e
triste... mas minha memória quase o esqueceu por
completo. Navegar é preciso também aqui neste universo virtual. Que importa saber o real motivo?
Então uma noite dessas um amigo me disse: “por que não escreve sobre sentimentos e emoções”? Pensei, por que não tentar?

domingo, julho 16, 2006

Passeio no Horto

Passeio no Horto

Fui ao Horto de São Vicente com meus sobrinhos. Era um lindo dia, céu azul e muito calor. Lá, há festas constantes: do morango, da banana, do pêssego. Desta vez era a Festa da Uva. Havia de tudo: uvas de vários tipos, suco de uva, geléias, licores etc. Mas o que adoçou a nossa tarde mesmo foi o sorvete de milho verde. Uma delícia!

Além das guloseimas, não poderíamos deixar de visitar o mini zoológico, principalmente as araras e os papagaios, tão coloridos e barulhentos. Nada me deixa mais contente do que provocá-los. Aí, vira um carnaval de cores e sons, pois eles fazem muito barulho e lá pelas tantas, já nem sei quem grita mais, se eu ou eles. Sempre volto para casa mais leve e feliz.

Nesta festa da uva, a tarde ainda prometia grandes emoções. Minha sobrinha, encantada com o casal de leões, cometeu uma gafe daquelas ao dizer que o charmoso casal de “tigres” era lindo. Ainda bem que tão ocupados em tomar banho de sol os leões não prestaram atenção no que ela dizia.

De repente, caiu uma chuvinha de verão, que não dura mais do que dez minutos e só serve para molhar a roupa. Enquanto isso subíamos a trilha, em meio a uma vegetação magnífica. A chuva rápida, o verde das plantas, o cheiro de terra molhada, banhou a nossa alma, com certeza.

Mas ainda havia muito para ver. E eu também não podia deixar passar a visita ao meu amigo avestruz. Tão elegante! Chique e mal acostumado, pois não pode ver alguém chegar perto do vidro que já estica o pescoço, como uma criança que sempre espera ganhar algo. Fico muito tempo olhando para ele e pensando como a natureza é perfeita.

Levo as crianças para ver o Museu dos Escravos e o restaurante de Angola.

A casa do vinho, a do licor (deliciosos!), o carrinho de pipoca e do churro.

De repente aparece do nada, um grupo de crianças, todas vestidas iguaisinhas, para

dançar uma dessas músicas que os jovens tanto gostam. Como estou com dois adolescentes, meus sobrinhos, faço o sacrifício de assistir o show.

Entramos no pavilhão onde se realiza a exposição de flores. O colorido é impressionante. Adoro flores! Principalmente as amarelas e mais ainda aqueles vasos de crisântemos bola. Lindos! Ainda vou levar um desses para minha casa, pensei. Azaléias, bromélias, mini cactos, tão graciosos.

Vasos muito pequenos me chamam a atenção, são no máximo do tamanho de um copo. Olho aquela plantinha verde contida nele, sem flores. Num primeiro momento ela me pareceu meio sem graça, se comparada a outras flores tão exuberantes e coloridas. Suas folhas não são longas, mas nas extremidades têm pequenas 'agulhas’. Chamam a atenção mais por sua forma, pois suas folhas são bem gordinhas, rechonchudas. Não sei por que associei tais plantinhas àqueles quadros antigos em que as donzelas retratadas são graciosamente gordinhas. Curiosa com tão delicada plantinha, fui ler a placa com o seu nome: SUCULENTA. Encantei-me mais ainda com ela.

Ah! Que tarde suculenta tivemos!


sábado, julho 08, 2006

Papo sério


O primeiro amor virtual a gente não esquece - Parte 12

Papo sério

Eros2002: oi

Eros2002: está zangada?

Psique: não, só estou escrevendo um pouco.

Eros2002: gostei muito da sua opinião sobre a violência

Psique: sim?

Eros2002: sim

Psique: é uma visão que na prática não apresenta soluções

Eros2002: há muita violência em quase tudo

Psique: onde será que está a solução?

Eros2002: sim, mas é difícil resolver o problema.

Psique: esse é o problema!

Psique: caríssimo, só procura o caminho errado quem é fraco de valores.

Eros2002: ok

Eros2002: você nunca cometeu um erro?

Psique: desse tipo não

Eros2002: ainda bem

Psique: nunca vendi o meu corpo

Psique: trabalhei muito na minha vida

Eros2002: sim, estou vendo.

Psique: e nunca precisei fazer nada de errado

Eros2002: certo

Psique: o pouco que consegui é fruto do meu trabalho

Eros2002: você acha então que apesar de toda a violência que há nas favelas é possível viver-se com dignidade nesses locais?

Psique: com certeza, trabalhei lá durante quatro anos como professora.

Eros2002: ok

Psique: lá tem muita gente boa e que trabalha duro

Eros2002: certo

Psique: só segue o caminho errado quem quer

Eros2002: ok

Eros2002: entendi

Psique: às vezes o caminho poder ser difícil, mas...

Eros2002: não pode haver só histórias tristes

Psique: com certeza, e todas as histórias de luta digna e trabalho honesto são bonitas.

Eros2002: ok

Eros2002: são cinco da manhã, devo estar louco.

Psique: louco de sono?

Eros2002: sim

Psique: vá dormir então

Eros2002: pois vou

Psique: boa noite

Eros2002: boa noite

Psique: xau

Eros2002: xau

Eros2002: vou desligar

Psique: descanse


A ti Musa



O primeiro amor virtual a gente não esquece - parte 11

A ti Musa

Eros2002: oi

Psique: oi

Eros2002: então a festa foi boa?

Psique: foi maravilhosa!

Eros2002: ótimo!

Psique: e eu fiz um brinde para você à mesa

Eros2002: obrigado

Psique: ontem tudo foi lindo, o baile, o jantar, tudo mesmo. E depois, formatura sempre é muito marcante.

Eros2002: sim

Eros2002: e você a mais bela da sala

Psique: obrigada, você é gentil.

Eros2002: o convívio foi bom?

Psique: com os amigos?

Eros2002: sim

Eros2002: aqui também saí, e conversei até com gente que não conheço, foi muito proveitoso

Psique: ainda bem que superou o dia de ontem

Eros2002: sim, acabou bem

Eros2002: quase bem

Psique: eu hoje me sinto estranha

Eros2002: por quê?

Psique: não sei, desde cedo sinto vontade de ficar sozinha, até na praia fui caminhar só.

Eros2002: sim?

Eros2002: oh!

Eros2002: eu já te liguei três vezes hoje

Eros2002: e nada

Psique: fazia tempo que não me sentia assim

Eros2002: tive azar

Eros2002: será por causa de ontem?

Psique: é como se eu precisasse conversar comigo mesma

Eros2002: serei eu a desestabilizar?

Psique: não é você não, sou eu mesma.

Eros2002: mas o que se passa?

Psique: não sei

Eros2002: o que é que sente?

Psique: Desculpe, mas preciso atender minha amiga que chegou. Volto logo

Eros2002: ok até logo

Psique: ainda está aí, Eros?

Eros2002: oui

Psique: desculpe, mas não podia deixar a minha amiga

Eros2002: sim

Psique: e eu ganhei um chocolate

Eros2002: linda menina

Psique: ela sempre me traz algo

Eros2002: simpática

Psique: eu?

Eros2002: também

Psique: onde estávamos mesmo?

Eros2002: você se sente estranha

Psique: é, às vezes quero ficar sozinha, conversar comigo mesma

Psique: e hoje passei o dia inteiro assim

Eros2002: sim, não quer conversar comigo?

Psique: quero

Eros2002: então diga, por favor,

Psique: conte-me sobre a sua noite ontem, onde foi?

Psique: onde foi passear?

Eros2002: foi de conversa de amigos

Eros2002: a um centro comercial e a um bar

Psique: mas foi a algum lugar bonito?

Eros2002: não muito

Psique: como são os seus amigos?

Eros2002: já não estava com eles há uns tempos e eles é que marcaram o lugar

Eros2002: são financeiros

Psique: o que é isso?

Eros2002: são pessoas da área financeira, logo muito cerebrais.

Eros2002: frios de análise

Psique: racionais?

Eros2002: sim

Eros2002: mais do que isso

Eros2002: muito virados para ouvir e contarem pouco

Psique: gosta de conviver com essas pessoas?

Eros2002: mas também tem piada

Psique: ah!

Eros2002: não estavam a trabalhar

Psique: e por que se reuniram?

Eros2002: era sexta-feira à noite

Eros2002: para por as conversas em dia

Eros2002: o grupo até já foi grande, só homens, mas eram jantares divertidos

Psique: não havia mulheres?

Eros2002: não

Eros2002: não calhou

Psique: como assim?

Eros2002: são meus conhecidos do mundo dos negócios, e não há ainda muitas mulheres no setor por aqui.

Psique: é pena

Eros2002: é

Eros2002: seria bem mais divertido

Psique: aqui, quando reúnem as professoras, é só mulher

Eros2002: cá, professoras também.

Psique também faz parte desse universo?

Eros2002: não faço muito parte desse grupo

Psique: não?

Eros2002: mas estes até são boas pessoas, mas muito cerebrais

Ero2002: eu é que lhes mostro o outro lado da vida

Psique: cerebrais = racionais?

Psique: o que mostra a eles, Eros?

Eros2002: alegria, humanidade, e uma visão mais otimista.

Eros2002: e de negócios

Psique: não sabem aproveitar a vida mesmo

Eros2002: mas ontem o local era acolhedor e propício a um bom vinho

Psique: ah!

Eros2002: beber um bom vinho deve ser na companhia de uma bela musa

Psique: brindou a mim?

Eros2002: sim, claro

Psique: legal

Eros2002: poetei para mim sobre o assunto

Psique: é mesmo?

Psique: conte-me

Eros2002: sim

Eros2002: pego no copo como se pegasse em ti

Eros2002: e brindo aos teus lábios com os meus

Psique: como é que é?

Eros2002: brindo aos teus lábios com os meus

Eros2002: e bebo imaginando o teu olhar

Eros2002: e ouço o teu riso alegre

Eros2002: e pouso de novo o copo

Eros2002: e lembro oceano azul e longo

Eros2002: a ti minha musa

Eros2002: fim

Psique: obrigada, Eros

Eros2002: de nada

Eros2002: o título é “A ti musa”

Psique: até onde nós vamos com tudo isso, Eros?

Eros2002: daqui a pouco vou para a cama...

Eros2002: acho que a uma bela amizade

Eros2002: sem complexos

Psique: Eros, boa noite!

Eros2002: que aconteceu?

Psique: nada

Eros2002: sério?

Eros2002: ofendi-a?

Eros2002: não acredito!

Psique: boa noite, não me ofendeu

Eros2002: ok, boa noite

Eros2002: você fugiu assim de repente

Psique: quero ficar um pouco sozinha, é só isso. Amanhã conversaremos com certeza

Eros2002: de certeza que é só isso?

Psique: sim, Eros

Eros2002: não me parece

Psique: o que quer que eu lhe diga então?

Eros2002: nada que seja contrariada

Psique: posso ir-me?

Eros2002: ok xau

Eros2002: boa noite

Psique: boa noite

Psique: xau

Eros2002: xau


domingo, julho 02, 2006

Morgana



Ela era linda! Olhos azuis, esbelta, dengosa, independente, mas muito carinhosa.

Gostava das pessoas, de estar sempre na companhia delas. Adorava tomar sol e no inverno, precisava estar bem agasalhada, pois morria de frio.

Sempre amiga, sempre próxima, era a companheira de todos os momentos.

Se eu acordava na madrugada para ir ao banheiro, ela também ia junto e me esperava na porta. Se eu tinha insônia, ela também não dormia, embora bocejasse, ficava firme ao meu lado.

Certa vez levei um susto! De repente, alguém pulou sobre o box do chuveiro e só não caiu em cima de mim, porque segurei a tempo. Era ela que não me deixava só nem na hora do banho.

Na minha cidade raramente faz frio, mas teve um ano que a temperatura caiu muito e nós duas dormíamos bem juntinhas embaixo do edredom.

Quando eu a chamava, ela respondia na sua língua.

Às vezes eu queria estar só, ela sentia e se afastava um pouco.

Certa noite entrou gente estranha no quintal, ela movimentou as orelhinhas como se fossem radares, e o seu olhar assustado me avisou na hora que tínhamos problemas.

Ela tinha três irmãos: Richard, Maria Flor e Viviane. Embora gostasse dos três, o seu preferido era o Richard, de olhar meigo e pelos negros e brilhantes.

Tivemos uma bela convivência de sete anos!

Um dia ela ficou doentinha, sangrava pelo canto da boca, tive que leva-la ao médico.

Não melhorou. Vê-la definhar me fazia morrer um pouco também.

Uma manhã, num gesto de desespero, chamei um táxi, coloquei-a sentadinha em uma almofada em meu colo e, levei-a para a melhor e mais cara clínica veterinária da cidade vizinha. Seu estado era crítico e ela teve que ficar internada. Foi a última vez que a vi.

Durante a semana, os veterinários me telefonavam duas vezes por dia, para informar sobre o estado dela. Eles me diziam que ela estava agasalhada, medicada e bem cuidada.

Mas a imagem dela naquele táxi, em meu colo, sentadinha na almofada, com o canto da boca sangrando, vai ser difícil esquecer. Quietinha, silenciosa, não miou uma única vez. Ela confiava em mim e sabia que eu estava fazendo o que era melhor.

Embora meu coração se enchesse de esperança, chorei a semana inteira de tristeza pelo sofrimento dela.

Mas a minha amada gatinha Morgana não resistiu à doença. A minha linda siamesa tão amiga, tão presente, me deixou. E ela foi enterrada no jardim da clínica veterinária.

Há apenas três meses eu havia comprado apartamento em um prédio onde era permitido ter animais. Fiz isto por Morgana, mas ela se foi.

No entanto, os momentos que vivemos são inesquecíveis, como por exemplo, quando ela se lambia e me lambia também. Ou quando eu acordava de manhã com a cabeça fora do travesseiro e Morgana com a cabecinha nele, as patinhas esticadas, me empurrando para fora. Assistíamos a TV, eu deitada no sofá, ela deitada em meu peito. Foram anos de carinho mútuo. O tempo passou, mas Morgana estará sempre presente em meu coração.