domingo, abril 02, 2006

O Bicho


Era domingo, um lindo dia de outono! Eu caminhava sem pressa ou preocupação pelo calçadão da praia.Pensamento solto, como o vento leve naquela tarde deliciosa.

O mundo parecia tranqüilo e feliz.

Mas de repente, vejo uma criança de cócoras, em frente a um restaurante, revirando a lata de lixo! Ela pegava restos de frutas e as colocava em um saco preto. Fiquei chocada! Aquela figura minúscula, agachada, guardando cascas de melão, era dantesca.

Olhei o menino por alguns instantes e o mundo desabou a minha volta. Já não era um lindo final de domingo. Como o mundo poderia ser harmonioso se havia uma criança com fome buscando o que comer em uma lata de lixo?

Educadora, costumo trabalhar com poesia em sala de aula.E, um de meus poetas favoritos é Manuel Bandeira.Seu poema “O Bicho” é um chocante relato da miséria humana. Poema forte, intenso, trata da pobreza humana em sua perspectiva mais triste: a fome! Nele, um homem busca alimento em uma lata de lixo. Mas é um adulto!

E, imaginar uma cena poética é muito diferente de vivencia-la!

A cada dia aumenta o número de crianças que vivem do lixo.Todas as tardes, elas esperam nas calçadas, que os apartamentos coloquem os latões na rua.

A disputa é feroz! Como bichos, avançam sobre os sacos, rasgando e pegando restos de comida, papel, plástico e vidro.

No ano passado, eu tinha um aluno que estudava de manhã e a tarde catava lixo na rua.

Volto para casa me perguntando por onde andará aqueles que são responsáveis pelo cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente? A imprensa que não denuncia tanta miséria e humilhação? O Conselho Tutelar? O Ministério Público? As ONGS? Enfim, todo mundo?

Aí o senso comum começa a latejar em minha cabeça: com uma extensão territorial como a nossa, a natureza tão rica,o futebol,as mulatas,o samba, o café!

E, afinal, Deus é brasileiro!

E ninguém faz nada para tirar essas crianças da rua?

Ah! Já sei, a culpa é do governo!

Então, uma voz emerge da minha consciência :

- E você, está fazendo a sua parte?

Olho para os lados e pergunto:

- É comigo?

Um comentário:

Anônimo disse...

Oi, Musa,

Gosto muito deste poema de Manuel Bandeira e tb trabalho com ele em sala de aula, comparo-o com o curta-metragem Ilha das Flores, que aborda este mesmo problema.
Parabéns pelo texto e pelo final tocante.
Beijos,
Djalmira