BREVE REFLEXÃO SOBRE A EXISTÊNCIA de "Hoyêdo Gouvêa Lins" ,
na ACADEMIA CATARINENSE DE FILOSOFIA, em 8-5-2003.
(O autor nasceu
- Universidade Federal de Santa Catarina. Ensaísta.
Do Instituto Histórico e Geográfico de SC. Da Academia Catarinense
de Letras. Agora também da Academia Catarinense de Filosofia).
1. Por que perguntar o que sou e para onde vou? Não deveria bastar-me
ter consciência de que aqui estou?
Medito sobre isto e ocorre-me que talvez me seja mais importante
conhecer o aqui. É que aqui estando posso - ou até devo - permitir a
respeito da minha satisfação pessoal sobre o ambiente que me cerca.
Ou, contrariamente, alhear-me de tal questão e acomodar-me em um
inócuo, imprestável laisser passer.
2. No primeiro caso percebo serem incontáveis as questões que a
reflexão sobre o tema pode suscitar.
Com efeito, se indago da minha satisfação pessoal ao ambiente que me
cerca, hei de considerar aspectos como: (1) o ambiente cultural,
implicando, portanto, fatores de ordem espiritual e, assim, a moral,
a estética, a ética, o direito e tudo o mais quanto com esses valores
esteja relacionado; e (2) o ambiente material dentro do qual estarei
a dar (ou tenha dado) e a receber (ou haja recebido) contribuições
integrantes do contexto em que se produzem, manifestam-se, geram
efeitos e criam demandas de natureza e de fruição material.
Em ambas as circunstâncias supra, está o universo social, posto que
suas configurações abstratas (no sentido de que o cultural está
desenhado no pensamento e é sentido no espírito), e suas configurações
concretamente materiais, residem no círculo das interrelações
pessoais que conformam o fenômeno social.
Estando aqui, em tal ambiente, poderei, então, analisar e avaliar
minha contribuição e meu grau de satisfação por estar aqui. Poderei
meditar, assim, se há razão para ter sido escrita a grande dúvida:
"Que é o homem? Para que é útil?
Qual é seu bem e qual é seu mal?" (Eclesiastes,18-8).
3. Menos ambicioso seria, porém, abordar sob outro ângulo o problema
da existência do homem no único planeta do Universo sobre o qual se
tem a certeza de haver vida, tal como a conhecemos.
Uma outra maneira de refletir sobre a presença do homem em seu
ambiente, comprometido com valores e submetido a influências
culturais, está exibida no poema Instantes, do grande Jorge Luiz
Borges:
"Instantes
Jorge Luiz Borges (1899/1986)
Se eu pudesse viver novamente minha vida, na próxima trataria de
cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido,
na verdade bem poucas coisas levaria a serio.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria problemas reais e menos
problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e produtivamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter
somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida,
só de momentos, não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte
alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente,
um guarda-chuva
e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
se eu pudesse voltar a viver,
começaria andar descalço
no começo da primavera
e continuaria assim até no fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos
E sei que estou morrendo."
4. Os versos de Borges não respondem àquelas questões, mas convidam
à reflexão sobre o que importa para o homem consciente de que sua
vida é finita.
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