quinta-feira, junho 22, 2006

Breve reflexão sobre a existência




BREVE REFLEXÃO SOBRE A EXISTÊNCIA de "Hoyêdo Gouvêa Lins" ,

na ACADEMIA CATARINENSE DE FILOSOFIA, em 8-5-2003.

(O autor nasceu em Florianópolis. Formou-se em Direito pela UFSC

- Universidade Federal de Santa Catarina. Ensaísta.

Do Instituto Histórico e Geográfico de SC. Da Academia Catarinense

de Letras. Agora também da Academia Catarinense de Filosofia).

1. Por que perguntar o que sou e para onde vou? Não deveria bastar-me

ter consciência de que aqui estou?

Medito sobre isto e ocorre-me que talvez me seja mais importante

conhecer o aqui. É que aqui estando posso - ou até devo - permitir a

respeito da minha satisfação pessoal sobre o ambiente que me cerca.

Ou, contrariamente, alhear-me de tal questão e acomodar-me em um

inócuo, imprestável laisser passer.

2. No primeiro caso percebo serem incontáveis as questões que a

reflexão sobre o tema pode suscitar.

Com efeito, se indago da minha satisfação pessoal ao ambiente que me

cerca, hei de considerar aspectos como: (1) o ambiente cultural,

implicando, portanto, fatores de ordem espiritual e, assim, a moral,

a estética, a ética, o direito e tudo o mais quanto com esses valores

esteja relacionado; e (2) o ambiente material dentro do qual estarei

a dar (ou tenha dado) e a receber (ou haja recebido) contribuições

integrantes do contexto em que se produzem, manifestam-se, geram

efeitos e criam demandas de natureza e de fruição material.

Em ambas as circunstâncias supra, está o universo social, posto que

suas configurações abstratas (no sentido de que o cultural está

desenhado no pensamento e é sentido no espírito), e suas configurações

concretamente materiais, residem no círculo das interrelações

pessoais que conformam o fenômeno social.

Estando aqui, em tal ambiente, poderei, então, analisar e avaliar

minha contribuição e meu grau de satisfação por estar aqui. Poderei

meditar, assim, se há razão para ter sido escrita a grande dúvida:

"Que é o homem? Para que é útil?

Qual é seu bem e qual é seu mal?" (Eclesiastes,18-8).

3. Menos ambicioso seria, porém, abordar sob outro ângulo o problema

da existência do homem no único planeta do Universo sobre o qual se

tem a certeza de haver vida, tal como a conhecemos.

Uma outra maneira de refletir sobre a presença do homem em seu

ambiente, comprometido com valores e submetido a influências

culturais, está exibida no poema Instantes, do grande Jorge Luiz

Borges:

"Instantes

Jorge Luiz Borges (1899/1986)

Se eu pudesse viver novamente minha vida, na próxima trataria de

cometer mais erros.

Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

Seria mais tolo ainda do que tenho sido,

na verdade bem poucas coisas levaria a serio.

Seria menos higiênico.

Correria mais riscos, viajaria mais,

contemplaria mais entardeceres,

subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a lugares onde nunca fui,

tomaria mais sorvetes e menos lentilha,

teria problemas reais e menos

problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata

e produtivamente cada minuto de sua vida;

claro que tive momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter

somente bons momentos.

Porque, se não sabem, disso é feita a vida,

só de momentos, não percas o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte

alguma sem um termômetro,

uma bolsa de água quente,

um guarda-chuva

e um pára-quedas;

se voltasse a viver, viajaria mais leve.

se eu pudesse voltar a viver,

começaria andar descalço

no começo da primavera

e continuaria assim até no fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua,

contemplaria mais amanheceres

e brincaria com mais crianças,

se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas, já viram, tenho 85 anos

E sei que estou morrendo."

4. Os versos de Borges não respondem àquelas questões, mas convidam

à reflexão sobre o que importa para o homem consciente de que sua

vida é finita.


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